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O Oráculo Cinzento

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O problema dos jogadores artificiais

  • Writer: Oráculo Cinzento
    Oráculo Cinzento
  • Jan 18
  • 4 min read

Uma nova tendência tem se desenvolvido nos últimos 2 ou 3 anos, e chega, agora, em um estágio perene e quase inevitável: a delegação do estudo de sistemas e criação de personagens para a IA. O apelo e o argumento central parecem compreensíveis, mas são falaciosos. "Não tive tempo de estudar tudo isso", diz um jogador, depois de passar 3 horas por dia em redes sociais nas últimas duas semanas precedentes à sessão de jogo. É a mesma falácia invocada para escusar-se de ler mais livros ou praticar exercício físico. Prefiro o jogador honesto que diz: "Não tive vontade de devotar meu tempo para isso", caso em que posso colocá-lo na categoria "jogador de one-shots", desde que seu comportamento à mesa não seja uma mera extensão de sua preguiça.


Dada essa dinâmica, com o perdão do pequeno desabafo, parece até digno de mérito aquele que se debruça por 5 minutos a delegar para a IA suas atribuições principais. Mas esse comportamento é mais nocivo do que parece.


1) A IA não é confiável para o estudo de regras:


Qualquer pessoa realmente conhecedora de um sistema que faça o upload do livro de regras no ChatGPT, Gemini ou qualquer uma destas máquinas famosas, saberá como é árduo fazê-las explicar corretamente cada regra, além de construir um personagem que tenha aderência ao sistema. Estou pressupondo aqui, é claro, sistemas de RPG minimamente detalhados, com mais de um punhado de páginas, feitos para pessoas que consigam conectar pelo menos alguns parágrafos conceituais.


Existe um motivo pelo qual as IAs não são capazes de acertarem na replicação de regras. Mesmo que você as comande a não inferirem nada fora do PDF, elas não conseguem evitá-lo. A mente humana faz inferências o tempo todo, usando contextos e subtextos organicamente coerentes. A IA precisa fazer isso, mas seu algoritmo não exclui as dezenas de livros de RPG usados para treiná-la e compor sua memória. Assim, ao pedir para estudar Mythras, a máquina irá preencher lacunas com RuneQuest. Ao estudar AD&D 2ª edição, usará D&D 5ª edição.


É possível melhorar a precisão, mas nunca chegar a uma compreensão digna de um mestre experiente. Faça você mesmo o teste! Perceba quantas iterações serão necessárias para replicar um conjunto amostral de regras consistentemente.


Deste modo, quando alguém delega sua carga cognitiva para a IA e assume como verdade os resumos dados, ficará consternado em perceber que o jogo vivido não é similar ao jogo digerido.


2) A IA não sabe fazer fichas de personagem:


O ponto mais grave, talvez, é a geração de fichas. O sujeito, como acima, entregou para seus mestres digitais o guia do jogador, e solicitou -- ou melhor, comandou -- que fizesse uma ficha de personagem (sem contar aqueles que adicionam a qualificação "faça uma ficha roubada, para quebrar o jogo"). Quantas vezes não tive que pedir para o jogador refazer a ficha por completo (com certo prazer) porque a que me entregou estava misturando regras de dois ou mais sistemas, além de inferir incorretamente certos atributos secundários? Era melhor ter me solicitado uma ficha pronta.


3) Artifical gera artificial:


Por fim, talvez o ponto menos grave para o mestre, mas não menos incômodo, é a delegação de histórias de personagem. Quando jogamos Call of Cthulhu, por exemplo, a história do personagem passa a ser bem relevante. Não é um jogo para lançar-se em um labirinto de armadilhas e dezenas de homens-lagarto (neste caso, não há problemas em ignorar sua história por completo). Assim, dias antes da sessão, o mestre recebe, de diversos jogadores, parágrafos no mesmo estilo insosso, pseudoelegante, mas com gramática perfeita. Imagino-os com olhos vermelhos e tubos de aço acoplados em suas cabeças, abastecidos com dados de um servidor central. Que assombro!


De tijolo em tijolo, desconstrói-se o orgânico, o vivo, o real.


Talvez este texto seja apenas uma expressão de um sujeito datado que perdeu o último trem para o futuro. Ficou preso em sua TV de tubo e sofá com capa plástica.


Devemos parar de usar a Inteligência Artificial por completo? Como é que é?


Sou menos radical do que pareço. É possível usá-la para o bem, certamente. A diferença está no método.


Em vez de pedir para a IA resumir o sistema em um único parágrafo, use-a para digerir parágrafos difíceis, questionar regras aparentemente contraditórias, ou criar arbitragens mais intuitivas para você. Isso significa que você vai dedicar tempo para ler o livro, mas copiar passagens ou até capítulos para auxiliar a retenção de conhecimento.


Em vez de delegar a ficha de personagem, use-a para esclarecer campos de preenchimento e conceitos gerais. Faça passo a passo, com calma e consciência.


Em vez de delegar a criação da história de seu personagem, use-a para lhe recomendar biografias ou ficções conforme um arquétipo geral como "detetives", "cavaleiros", "piratas" etc.

Lembre-se de que você não precisa escrever grandes redações, apenas uns dois parágrafos curtos e marcantes. Lembre-se disso: RPG não é um exercício de escrita criativa, mas de vivência criativa, como diz meu nobre amigo Victor.


Capa The Robots of Dawn da Editora Espectra, arte de Stephen Yeoull.
Capa The Robots of Dawn da Editora Espectra, arte de Stephen Yeoull.

Estas máquinas do futuro são ótimas como assistentes, como ordenadoras de conhecimento, mas péssimas criadoras. Não perca sua alma. O RPG é uma das poucas atividades que exige mais de nós aquilo que nos torna diferentes de todas as outras criaturas, incluindo os robôs: a capacidade de tecer narrativas para além da racionalidade instrumental.


Deixo o costumeiro abraço.


Ouse ser humano.







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